Mulheres da Camomila: a libertação da culpa




Palmira Margarida
: Notas Perfumadas :
Mulheres da Camomila: a libertação da culpa
Fonte: Revista Vertigem
09 • 02 • 2017

A camomila deseja falar com as mulheres, e esse texto é uma pequena realização dessa missão. Vigorosa como a deusa Durga, atenta como Kuan Yin, nutridora como Pachamama. Camomila carrega em si todos os arquétipos da deusa, é só saber ouvi-la! Maleável como a água, é a Matriarca da Terra, é Gaia em vegetal e a base para todas as alquimias das mulheres. A pequena e inofensiva flor é forte, corajosa e acolhedora de todos nós, homens, mulheres, crianças, idosos, acolhedora até das outras plantas ou de qualquer ser vivo nesta Terra, e assim é porque só consegue acolher e curar sem machucar quem tem amorosidade em sua força.

No entanto, a maioria foi levada a acreditar, como eu já acreditei, que ela é uma plantinha boba, frágil, delicada, servindo para os bebês e para fazer aquele chazinho quente em dias de resfriado. Ledo engano! A camomila, como uma metáfora para o que pensam sobre as mulheres, não é boba, fraquinha nem serve apenas para dar uma acolhida. Talvez, justamente, por representar as mulheres em épocas passadas e por ter sido tão utilizada por elas, essa associação fez com que a camomila se tornasse coisa de “mulherzinha”, fraquinha, boazinha.

Seu nome oficial é Matricaria e significa útero. Camomila é o útero onde se inicia um caldeirão tão forte e sábio que cura sem ferir, é sincero sem espezinhar, toca sem esmagar, dá prazer sem ser invasivo e leva as dores embora fluindo em gratidão e desabrochando leves risadas como a deusa Uzume. Já contei no texto Candidíase: a vagina como local de cura que me tratei da candidíase com a matricaria. Foi através desse processo que ela se revelou muito mais poderosa do que eu imaginava. O fato de eu vê-la como algo “menor” ou “frágil” foi um insight para perceber como eu mesma me concebia sendo mulher: frágil, cuidadora, doce, pequena flor e, por isso, sem possibilidades de algo maior, profundo e corajoso. Minha interação com a camomila, desde então, tornou-se intensa e afetuosa.

Mas para que ela realmente serve? Se formos apenas seguir a bibliografia básica da aromaterapia, teremos uma visão limitada sobre o poder dessa nobre matriarca. Porém, como historiadora, analisando variadas fontes antigas, inclusive da Inquisição, que cita a camomila como uma das ervas mais utilizadas pelas camponesas, notei que elas empregavam-na para tudo, principalmente para cuidar de seus ventres. Naquele período, entendia-se por ventre o útero e, pela etimologia latina, o útero abrangiria o sistema reprodutor feminino e suas emanações, como menstruação, gestação, prazer, e não apenas a parte do útero como concebemos na nomenclatura atual. Camomila matricaria é o útero, o ventre, o sistema reprodutor, a força da mulher, o canal vaginal, o seu local de cura energética e espiritual. Não é à toa que a camomila aparece muitas vezes nas ordenações inquisitoriais como prova de bruxaria.

Como uma planta que, desde tão longínqua data, recebe o nome de todo o poder feminino foi subjugada apenas como um “chazinho quentinho”? Quero contar que nesse chazinho quentinho há mais poder do que se imagina. Está cansada do sistema? Exausta? Se separou? Excesso de trabalho? Solidão? Precisando de acolhimento? Camomila! Está precisando de ânimo? Força interior? Querendo ver sua beleza? Acreditar nela? Acreditar que você é capaz e tem poder? Camomila!

Mas por que a camomila teria todo esse poder em nós, mulheres? Diante de meus estudos históricos e fazendo uma relação também com a história da utilização dessa planta, interpreto que a camomila cura porque nos liberta da culpa. As mulheres, principalmente as latinas, carregam em si muita culpa, por consequência de, desde a Roma Antiga (400-300 A.C.), terem tido seus corpos atrelados a todas as mazelas que ocorriam na sociedade. Nas fontes da época, observa-se que, em Roma, as desgraças estavam atreladas a três principais pilares: menstruação, aborto e falta de castidade. Ou seja, desde nossos ancestrais romanos, a sociedade culpabiliza o corpo da mulher por todas as tragédias. Culpa por menstruar, culpa por gerar ou não gerar, culpa por gerar “errado”, culpa por sentir prazer, culpa por falar, por fazer ou não fazer. A culpa nos oprimiu e silenciou; a camomila, como uma mãe acolhedora e extremamente forte, vem nos tirar dessas amarras com tanta leveza e acolhimento. Ela é tão bela e sábia no seu curar que pode tanto cuidar de um bebê como de uma forte candidíase. Ela é tão maravilhosa em seus desenlaces de culpas que pode fazer uma mulher “parir” suas feridas e, logo depois, sorrir e seguir em paz.

A cura emocional com a camomila não pode ser muito técnica, é preciso se entregar a ela. Costumo vê-la trabalhando melhor quando tomada em uma roda de chá de mulheres do que quando utilizada somente de forma meticulosa e prática, por exemplo. Para “curas técnicas”, funciona bem, mas, se eu tivesse seguido apenas esse modus operandi, nunca teria usado camomila para me curar de candidíase.

A camomila é ornada por flores pequeninas que são conhecidas em muitos lugares no mundo como “flores amiguinhas”, mas elas são amigonas, na verdade. Costumo dizer que a minha melhor amiga, depois de mim mesma, é a camomila. Alegre, brincalhona, leve, carrega em si a capacidade de curar sem destruir, sem maltratar, pedindo, gentilmente, para o que te faz mal sair. Diplomática, séria quando precisa, mas risonha até nesses momentos. Camomila é como água, maleável, descobre a linguagem do que nos ataca e, sem agredir de volta, conversa, leva, desfaz. É uma Kuan Yian, mas também é Durga quando preciso, e sua água vira uma tsunami se necessário for.

Flor amiguinha, margaridinha, macela, joia das camponesas, florzinha de ouro. Dentre tantas matricarias, duas famosas espécies se destacam: Matricaria recutita C. ou camomila azul ou camomila dos alemães. A outra é a Anthemis odorata Lam ou camomila romana ou macela. Essa última é a mais conhecida no Brasil e, geralmente, é a que vendem nas caixinhas do supermercado. Eu gosto de usar as duas juntas, pois apresentam a mesma energia. A única real diferença para mim, que sou sinesteta, é que com a camomila azul eu vejo uns raios no ar (mas sempre vejo esses raios com qualquer coisa azul e, já que ela apresenta em sua composição química camazuleno, a explicação pode estar aí).

Há macerados, tinturas, os óleos vegetais e os essenciais, que são caríssimos. Apenas 10 ml de óleo essencial puro de camomila romana podem chegar a custar trezentos reais. Como meu intuito aqui é que todas possam se beneficiar, vou passar quatro receitas que podem ser feitas com o chá de saquinho mesmo, e lógico que, se você tiver os óleos essenciais e vegetais em casa, melhor ainda, mas, com essa planta, o que vale é a intenção. Eu me despeço pedindo para que você use camomila com carinho, se retire da couraça da culpa, converse com a matricaria e perceba como ela, delicadamente, vai lhe mostrando os arquétipos da deusa e o pulsar do seu poder sagrado feminino.

1. Banho de assento

Pegar uma bacia (caso não tenha banheira, eu não tenho e faço em uma bacia que comprei no mercado popular por dez reais), encher com água filtrada (amornar) ou fervida. Depois de morna, colocar os saquinhos de camomila (para cada litro de água, dois saquinhos). Se você tiver a camomila daquelas compradas a granel, pode colocar um pouco também. Apague as luzes, acenda velas, incensos, relaxe e deixe ela te guiar. Ideal para fazer na lua cheia ou crescente.

2. Chá com outras mulheres

Só chá mesmo. O mais importante será a cerimônia. Não precisa de nada caro, apenas a intenção de acolhida entre vocês. Evite copos plásticos, tente cerâmicas e vidros, desliguem os celulares e conversem entre vocês. Você pode usar em um chá com as amigas ou com as mulheres de sua família, experimente usar junto com a sua mãe e avó ou tias (e esteja preparada, também). Talvez você cure várias crenças ancestrais femininas nesse momento e libere muitos padrões por todas elas. Pode oferecer o chá antes ou após uma roda sagrada de cura, em um evento com mulheres, para as suas amigas do trabalho, para seus filhos/as, maridos e esposas.

3. Borrifador para a sua casa e corpo

Você vai precisar de álcool de cereais (se ficar difícil de achar, use álcool comum, no entanto, o aroma irá aparecer menos), um frasco de vidro com borrifador, uma jarra/bacia pequena de vidro ou porcelana e saquinhos de chá de camomila. Coloque o álcool na jarra/bacia, coloque os saquinhos no álcool (para cada 100 ml de álcool, um saquinho de chá), deixe por umas três horas e tape com um tecido fino, mas faça com emoção e coração, converse com a planta! Fale com ela o que você deseja para você, para a sua casa e família. Depois do tempo determinado, coloque o líquido no borrifador. Pode deixar na geladeira para “assentar” o cheiro uns dias. Depois, use na sua casa, na roupa de cama e em você!

4. Banho de beleza com camomila

Em água filtrada, coloque saquinhos de camomila, deixe descansar por dez minutos. Esprema um pouco os saquinhos para retirar o excesso, deite-se e coloque-os sobre os olhos, isso suavizará suas olheiras. Coloque entre as sobrancelhas e suavizará seu cansaço mental. A água que sobrou no recipiente, se usada nas próximas horas, pode virar um líquido facial. Ele irá relaxar a pele do rosto e acolher o seu cansaço.

Imagem: vela massageadora de camomila para mulheres, criada por mim. Foto de Mayra Vaz

Palmira Margarida é historiadora e atualmente é doutoranda na UFRJ. Pesquisa sobre neurociências, os cheiros e as emoções. Estuda também neurobiologia das plantas e é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para informações sobre seu trabalho com aromas, visite o site www.perfumebotanico.com.br ou entre em contato pelo e-mail: palmira.margarida@revistavertigem.com

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